Heparina é um potente anticoagulante pertencente à família dos glicosaminoglicanos altamente sulfatados, extraído principalmente de tecidos animais. Desempenha um papel central na prevenção e tratamento de distúrbios trombóticos por meio de suas interações com proteínas plasmáticas envolvidas na cascata de coagulação.
Estrutura Química
A heparina é composta por unidades dissacarídicas repetitivas consistindo de ácido urônico, predominantemente ácido idurônico (IdoA) com sulfatação em 2-O, e glicosamina N-sulfatada (GlcNS), que frequentemente está 6-O-sulfatada. Essa estrutura resulta em um peso molecular variando de 3 a 30 kDa, com a maioria das preparações comerciais com média de 12–15 kDa. Uma sequência pentassacarídica distinta dentro do polímero se liga especificamente à antitrombina III (AT). A alta densidade e o posicionamento preciso dos grupos sulfato, combinados com uma conformação helicoidal flexível, permitem interações fortes e seletivas com proteínas.
Biossíntese e Relação com o Sulfato de Heparano
A biossíntese da heparina é muito semelhante à do sulfato de heparano (HS), mas resulta em um grau de sulfatação significativamente maior. A síntese inicia-se no aparelho de Golgi com a ligação de um resíduo de xilose a resíduos de serina de proteínas núcleo, seguida pela elongação da cadeia mediada pelas enzimas EXT e EXTL. Modificações subsequentes incluem N-sulfatação por enzimas NDST, O-sulfatação por HS2ST, HS6ST e HS3ST, e epimerização do ácido glucurônico para ácido idurônico. Produzida predominantemente por mastócitos, a heparina contém domínios NS densamente sulfatados, como IdoA2S–GlcNS6S, em frequências muito maiores que o HS derivado de tecidos.
Mecanismo de Ação
A heparina exerce sua atividade anticoagulante ao se ligar à antitrombina por meio de sua sequência pentassacarídica específica, induzindo uma mudança conformacional que acelera marcadamente (até 1000 vezes) a inibição mediada pela antitrombina da trombina (fator IIa) e do fator Xa. Cadeias mais longas de heparina podem se ligar simultaneamente à antitrombina e à trombina, formando um complexo ternário que potencializa ainda mais a inibição. Esse mecanismo suprime principalmente a formação de fibrina sem afetar diretamente a função plaquetária, diferenciando a heparina dos anticoagulantes orais diretos.

